O assassinato da rua Coronel Bento Bicudo
Silvino, que era casado com Olympia, que amava Cândido, que era casado com Delmira e foi morto por José, que era irmão de Silvino e de Delmira, que casou-se depois com Flávio. Esta é a ciranda que, por muitos anos, habitou o imaginário e preencheu conversas das pessoas do Distrito de Paz de Villa Americana e do município de Campinas. O assunto era o assassinato do médico e subprefeito Cândido Cruz.
Todos queriam entender os motivos de tal crime. Muitos conjecturavam e muitas versões ainda hoje são contadas. Como entender tamanha tragédia que envolveu pessoas tão conhecidas e ocupantes de cargos importantes naquele povoado de cerca de dez mil habitantes?
José Augusto de Oliveira, musicista e iniciador da carreira de Germano Benencase, era irmão dos professores Silvino José de Oliveira e Delmira de Oliveira, e cunhado da professora Olympia Barth de Oliveira e de Cândido Cruz. Silvino havia chegado em Villa Americana em 1902, quando começou a lecionar e ficou conhecido como primoroso músico. Juntamente com sua esposa, fundou o jornal “O Combate”, “através do qual defendia os pobres e combatia as injustiças”. Sua irmã Delmira logo fez fama por conseguir alfabetizar crianças em curto espaço de tempo.
Segundo jornais da época, “às dez horas da manhã de 12 de fevereiro de 1921, José de Oliveira desembarcou do trem da Paulista no Distrito de Paz de Villa Americana e seguiu para o Cemitério Municipal da Saudade para visitar o jazigo de sua mãe”. Depois, dirigiu-se ao empório de secos e molhados de Florindo Ciin, localizado na rua Coronel Bento Bicudo (atual rua 12 de Novembro), a fim de reencontrar seu amigo, filho do comerciante.
Ainda segundo jornais, pouco tempo depois, e sem saber da presença de José, Cândido dirigiu-se ao empório de Cibin e, ao encontrar seu cunhado, recebeu cinco tiros à queima-roupa e morreu no local. Foram dias de noticiários e luto oficial decretado pelo prefeito de Campinas, Raphael de Andrade Duarte.
Preso em flagrante e com julgamento marcado em poucos meses, José de Oliveira foi condenado a seis anos de prisão. Hoje, somente os autos do processo podem nos dar indícios da motivação do assassinato. Os depoimentos de José podem esclarecer o que todos acreditavam ser um crime passional, ainda mais por ter recebido uma pena reduzida.
Villa Americana seguiu sua vida e, logo após o crime, em 12 de novembro de 1924, foi elevada a município. Além de lecionar, Silvino montou quatro bandas e alcançou fama estadual com a “Lyra Municipal”. Faleceu aos 82 anos, em 3 de outubro de 1956.
A escola estadual do bairro Cordenonse recebeu seu nome através do decreto 30.965, de 13 de fevereiro de 1958. Olympia lecionou no Grupo Escolar “Dr. Heitor Penteado” e também trabalhou na alfabetização de adultos, aposentando-se em 1938. Faleceu aos 81 anos, em 14 de agosto de 1966. Em março de 1970, a escola estadual do bairro Jardim Ipiranga recebeu seu nome.
Delmira contraiu novas núpcias com o funcionário de seu falecido marido, o mineiro Flávio Lopes. Continuou a lecionar e participou ativamente das questões públicas de nosso município. Faleceu em 14 de agosto de 1960, aos 76 anos. A escola estadual do bairro Mathiensen recebeu seu nome e possui, inclusive, um hino à sua patrona, que você pode conferir na página sobre ela em nosso site (acesse aqui). Hoje, em seu singelo jazigo, descansa entre seus dois maridos.
