Solidariedade, tromba d’água e Alexandre Pignanelli
A maior tragédia de causa natural que abateu nossa cidade ocorreu em 12 de dezembro de 1949, e ficou conhecida como a tromba d’água, um evento que, por décadas, povoou o imaginário de moradores da cidade. Estava em minha programação rememorar neste espaço os tristes acontecimentos daquela noite fatídica. Acreditava possuir boas e suficientes fontes documentais para a realização do trabalho. Acreditava, inclusive, possuir um grande trunfo inexplorado: a digitalização do processo 148 de 1949 da Câmara Municipal de Americana, que tramitou a indicação 27/49 de autoria do vereador Antônio Zanaga sobre o assunto. Foi quando conheci o artigo “A tromba d’água de 1949 em Americana”, escrito por Alexandre Pignanelli e disponível em www.villaamericana.org.br.
Com rigoroso texto, alicerçado por uma minuciosa pesquisa, o trabalho de Pignanelli é a maior e mais importante referência sobre a tragédia de 1949. Abrangendo diversos aspectos, da contextualização humana, geográfica e urbanística, utilizando-se de documentos, entrevistas, mapas e fartos registros fotográficos, o autor nos transporta para aquela noite de horrores vivida pela população e nos arrasta ao longo das horas de salvamentos e pelos dias de reconstrução e acomodação dos desabrigados. Para um historiador, em tempos nos quais muito do que é publicado traz mais perguntas do que compreensão, é gratificante ver um pesquisador ser escrupuloso com nomes e graus de parentescos, esmiuçando localizações e construções.
O texto, que é dividido por temas (antecedentes, o Circo Teatro Universal, a tromba d’água, os trabalhos de resgate, as vítimas, os dias seguintes e os anos seguintes), possui dentro de si um trabalho de reconstituição minuciosa (perdão, não consigo outro adjetivo) da história de um grande circo, criado por um artista piracicabano, ao mesmo tempo em que ilumina os picadeiros da vida circense no país de modo geral.
Percebi que para este precioso espaço, restava duas opções: tratar do acontecimento de maneira geral, correndo o risco da superficialidade diante de algo tão importante, ou reverenciar e divulgar o trabalho de Alexandre Pignanelli e tratar de um dos aspectos da tragédia, os sentimentos e ações do homem, optei pela segunda.
Após horas de terror e desespero do início da noite, causados por “uma chuva torrencial, concentrada e contínua, com fortes ventos e um volume de água nunca visto até então pelos moradores da cidade”, e com o início da madrugada, vieram a tristeza desoladora, as dúvidas e as preocupações com o estado de parentes e amigos. Dentre as seis vítimas fatais, três eram crianças. 43 famílias ficaram desabrigadas. E o circo, que estava montado no centro da cidade, teve praticamente toda sua estrutura e acervo levado ou destruídos pelas águas.
Mas outros sentimentos e valores surgiram neste cenário assustador: a bravura das dezenas de jovens do Tiro de Guerra, a engenhosidade e desprendimento do soldado Osvaldo da Silva Moraes e o amor ao próximo do funcionário do circo Domingos de Jesus, que infelizmente foi soterrado pela queda de um muro após salvar pelo menos 12 pessoas. Já ao amanhecer, foi a solidariedade que passou a invadir as ruas de lama e escombros. A praça Basílio Rangel se transformou no Q.G. do Comitê de Auxílio às vítimas, formado ainda na manhã do dia 13 de dezembro.
O caso do Circo Teatro Universal também é muito emblemático, parte de seus componentes foram alojados na sede social do Rio Branco, sua reconstrução contou com a ajuda dos moradores e empresários da cidade, além de um movimento de arrecadação realizado por diversos circos do país. Assim que alcançou condições mínimas para reiniciar suas apresentações, e assim garantir o sustento de seus artistas e funcionários, atuou por uma temporada com o nome de Circo Teatro Americana. Meses depois, sem ter recuperado todo o seu prejuízo, o circo apresentou em “Santa Bárbara d’Oeste, no dia 26 de março de 1950 (…) um espetáculo beneficente com renda totalmente revertida para o Asilo São Vicente de Paula daquela cidade”, demonstrando a mais alta compreensão sobre solidariedade.
Quero aqui, nesta última coluna do ano, externar o meu mais profundo agradecimento àqueles que, sem os quais, este espaço nem existiria: Azael Alvares Lobo Neto, Cecília Dei Santi, Claudia Monteiro, Claudio Gioria, Divina Bertalia, Fanny Olivieri, Gilberto Hackmann José Eduardo Milani, Maurício Vargas, Oswaldo Paciulli e Rodrigo Maia. Um solidário, inclusivo e feliz ano novo!
