Albertine Müller e sua primeira viagem à Alemanha

“Aproxima-se a hora da despedida que há várias semanas minha mãe vem antecipando com terror. Indescritivelmente penoso foi aquele momento quando pela primeira vez ela abraçou e apertou contra o peito os seus queridos filhos Hermann e Erich, apelidado de Schunkel. Hermann havia completado 9 anos no mês de abril e Erich ia logo fazer 8. Assim, levando consigo o Hans que tinha 6 e a mim que tinha 3 anos, além da Vivi e da Wilhelmine que era mocinha, minha mãe partiu rumo ao Brasil”.

Este é um trecho das memórias de Margarete Müller von der Leyen que trata do retorno, em maio de 1893, de Albertine Müller de sua primeira viagem à Alemanha. Talvez seja estranho para nossos dias, devido a visão difundida sobre o povo alemão contemporâneo, a demonstração de afeto e o curioso fato de que naquele período, final do século XIX, era muito comum entre eles os apelidos íntimos e carinhosos.

Albertine havia embarcado em Santos, no vapor Cintra, com seu marido Franz e os seus ainda 4 filhos, em fevereiro de 1892. Era sua primeira travessia do Oceano Atlântico, que nos dez anos seguintes ela atravessaria mais oito vezes. A viagem durou cerca de seis semanas, pois o navio aportou no Rio de Janeiro, na Bahia, em Recife, na Ilha da Madeira, em Lisboa e Porto, em Bolonha, Cherburg Calais e ainda em Roterdam antes de chegar a Hamburgo.

Em Hamburgo a família seguiu para Brunswick, onde morava Hermine Auguste Emilie, que era dois anos mais velha que seu irmão Franz Müller, e que era chamada pelos sobrinhos brasileiros de tia Taminchen. Margarete nos conta que sua mãe foi “recebida carinhosamente pela cunhada e logo se entusiasmou pela cidade onde vivia um grande número de irmãos e irmãs de meu pai que se mantinham unidos através de um sincero e indisfarçado amor fraternal”. Era o caso do irmão mais velho, conhecido como tio Hermann, as irmãs Maria Bosse e Lotte Bach, com suas respectivas famílias, e o caçula Ernest, que ainda era solteiro. Ainda segundo Margarete, sua “mãe, a Albertine do Franz, foi por todos acolhida como irmã”.

Logo após a acomodação da família, Franz Müller viajou a negócios para a Inglaterra. Naquele ano foi o primeiro Natal sem a presença do pai, mas Albertine permaneceria por um ano com os filhos. O rigoroso inverno e a perspectiva de retornar sem os filhos Hermann e Erich (pois o motivo da viagem era a iniciação dos meninos em uma formação escolar no exterior) abateram o ânimo de Albertine, que desabafava suas tristezas em carta ao marido.

Em 1º de fevereiro de 1893, já em São Paulo, Franz responde uma destas cartas: “meu tesouro mais querido,… você pode crer que sinto uma pontada no coração quando penso nos pobres meninos que depois ficarão sem você… Neste momento você está melhor do que eu, porque pelo menos têm os filhos perto de si… Os filhos são parte de nós mesmos, e através deles você também tem um pedaço de mim perto de você – e o que tenho eu?”.

A tia Taminchen, que faleceu em 24 de abril de 1922, com 69 anos, foi a tutora de todos os filhos do casal Franz e Albertine, quando estes estudaram na Alemanha. Margarete, em muitos momentos de seus livros de memórias conta episódios da tia com seus irmãos e consigo, transcreve trechos de cartas trocadas por esta e sua mãe. Todo o material epistolar e publicações dos descendentes brasileiros desta família são um material inesgotável para pesquisa histórica ou memorialista, possibilitando os mais variados recortes. Hoje falta apenas incentivo e financiamento, mas espero que algumas historietas que compartilho com você, querido leitor, provoquem curiosidade e momentos de reflexão. 

Família Muller Carioba

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