Ao ‘seu’ Oswaldo Paciulli
Querido Oswaldo Paciulli, me desculpe a intimidade, mas me sinto íntimo por vários motivos, o primeiro deles é que comungamos um grande amor por Americana, mesmo sabendo que toda cidade tem sua glória e sua vergonha, o que nos impõe um dever de tentar amar aqueles que aqui vivem. Você tem se saído melhor do que eu neste quesito. Segundo, pela sua jovialidade e o seu entusiasmo em conviver, mas principalmente pela forma de puxar conversa com o passado, quando você abre uma fresta de uma cortina e nos deixa espiar o acontecido.
Que ninguém se engane, porém, você não está preso ao passado, apenas o visita com frequência, depois volta com um sorriso de quem sabe que por trás de um discurso oficial há sempre um adultério, um recibo extraviado. Lembro da segunda vez que te encontrei, por acaso, na banca de jornal da nossa querida amiga Silvia. O sorriso franco e o meu nome na ponta da língua me impressionaram muito, e que foram seguidos de “vamos subir e tomar um café comigo”.
Depois deste primeiro café houveram muitos outros, prensados e trazidos por você, tão gentilmente em bandeja com toalhinha e acompanhado de biscoitos. Sempre penso em alguns personagens da Lygia Fagundes Telles quando me lembro de nossas conversas, da sua cortesia em pequenos gestos, da elegância simples e sincera nos trajes e em contar algo mais secreto sobre aqueles que já não estão mais aqui, “ah, não sei, diziam…”, e eu fico lá, imaginando…
Deste primeiro café, desci as escadas de seu escritório escrevendo mentalmente a crônica sobre os alto-falantes, ainda lembro de você reproduzindo as frases dos moços que solicitavam música, dedicando-as às moças de belos vestidos. Quantas histórias ouvi depois desta, compartilhando neste mesmo espaço, as impressões, os relances e os vislumbres de coisas acontecidas, como aquele do dia do retrato dos alunos do Grupo Escolar Heitor Penteado, alguns deles sem sapatos, e postados na última fileira, lá nos tempos de sua meninice, que neste mesmo registro, eternizou você ao lado de seu grande amigo Zizo.
Sei que este é um momento difícil, mas você é um homem bom, muito querido e respeitado, que conhece seus predicados, por isso mantém esse brilho no olhar e a alegria de viver. Que coisa boa seu Oswaldo! Esta semana ouvi sua gargalhada na ligação telefônica que fizemos, senti, mesmo a distância, a alegria que possui em coisas que, às vezes, depois de alguns anos, outros desprezam, como fazer aniversário, pois logo que indagado como estava, disse “estou ótimo e prestes a completar 95 anos”, tudo isso com uma alegria que me lembrou como um garoto de 6 anos espera sua festa.
Comemorar os anos alcançados é um dos ritos, dentre tantos que costumamos fazer, ou costumávamos, as coisas e as importâncias tem mudado, dizem, mas esses ritos são fundamentais para reafirmarmos nossa humanidade. Você me disse no final de nossa conversa telefônica, “meu amigo foi muito bem homenageado”, confirmando para mim este seu sentimento sobre as coisas e as pessoas, e a importância da dedicação ao próximo.
Guardei em meus baús outras histórias contadas por você, dia desses elas vão para o papel, pois para entendermos o agora, precisamos ouvir os ecos de ontem. Muito obrigado por me ajudar a reunir, escovar e soprar a poeira de histórias esquecidas. Ouvindo a música “Pelo tempo que durar”, da Marisa Monte, desejo paz, saúde e amor para todos os novos dias de seus 95 anos que completará dia 23 de junho, viva Oswaldo Paciulli!
*inspirado em “Minha querida Cármen Lúcia”, de Mário Prata, publicada na Folha de São Paulo em 07 de junho de 2026.
