Novamente, ‘Americana conta sua história…’ A cidade agradece!

“A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.” – Jacques Le Goff, in: História e Memória

O dia 21 de abril de 1985 não é apenas a data da morte de Tancredo Neves. É, também, a lembrança de uma manhã ensolarada e podre, quando uma criança de 10 anos escreveu, chorando, a data e o nome do político mineiro em um cimento fresco, em seu ensolarado e pobre quintal. Não entendia, mas sentia. Ainda está gravado, na minha memória, aquela dor, aquela sensação de que a esperança havia morrido.

“Os acontecimentos públicos […] não são apenas marcos em nossas vidas privadas, mas aquilo que formou nossas vidas, os acontecimentos públicos são parte da textura de nossas vidas”, já dizia o historiador Eric Hobsbauw.

“Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem”, escreveu, com imensa sabedoria, Hobsbaw em fins do século passado. Mesmo tendo vivenciado tantas e tão intensas transformações, quem nasceu no século XX tem a característica de associar as suas vidas e as suas memórias às vidas, memórias e histórias coletivas.

Para a história e a memória de Americana, o quarto documentário da série “Americana conta a sua história”, que será lançado dia 27 deste auspicioso mês de novembro, é mais uma lufada de brisa boa em suas páginas descoradas, que muitas vezes são esquecidas ou maltratadas.

Ao assistirmos aos documentários, que foram produzidos por uma equipe de apaixonados, amantes de Americana, vemos o frescor invadir e reviver o passado, sentimos as alegrias e as dores que foram vividas e marcaram aqueles que compartilham suas lembranças.

O documentário “Americana conta a sua história” possui questões que acredito ser de importância capital para a manutenção da memória e a nutrição de nossa história. Primeiro, são os impactos causados nos depoentes; segundo, os sentimentos gerados no público; e, terceiro, pistas e mais pistas que ficarão registradas e servirão a muitos pesquisadores futuros.

O depoente, para além do sentimento de orgulho por ter sido convidado a participar, e do sentimento de valorização de ser ouvido, é impactado por perceber que aquilo que foi tão importante para ele, também o é para outros. Tão importante que profissionais se esforcem para ouvir e transmitir para um grande público, para as novas gerações, essas experiências pessoais.

Não raro, vemos um marejar nos olhos saudosos, mas sem perder o brilho no olhar daqueles que foram movidos a revirar seus baús, da edícula nos fundos do quintal ou do fundo da cachola, e de lá desse fundo trouxeram algo, feliz ou triste, mas vivo.

Todos estes relatos, após serem organizados, ornamentados com belas e antigas imagens, receberem sonoplastia e uma impecável narração, provocam no espectador o deleite, a curiosidade e a reflexão. Faz com que o homem do presente, nascido ou não aqui, entre em contato com esse passado e com ele crie sentimentos de pertencimento.

Como historiador, o que salta aos olhos é a quantidade de pequenos detalhes, pistas e informações aleatórias que levam a outras descobertas. São endereços esquecidos, costumes abandonados, famílias que já não existem, prédios derrubados… As brincadeiras de criança, as maneiras do flerte e os namoros, as brigas e as discórdias, a luta diária pela subsistência.

Como dizia Baudelaire, “cada época possui seu porte, seu olhar e seu sorriso”. Enfim, são os aspectos humanos, suas ações sobre o tempo, sempre transitórios e efêmeros, mas que continuam suscitando novas questões e contribuindo para a construção narrativa de novos pesquisadores.

“Americana conta sua história…” também contribui para que o presente e o futuro se tornem dignos de integrar, um dia, a Antiguidade.

Similar Posts