A segunda viagem de AlbertinE Müller à Alemanha
“Taminchen cuidava de todo o movimento na casa com a ajuda de duas empregadas. Mamãe era suficientemente diplomática e inteligente para nunca se imiscuir nesses assuntos. Ficava sentada em sua cadeira junto à janela, sempre fazendo algum trabalho manual. Taminchen chegava a lhe perguntar se queria alguma coisa, mas mamãe nunca tinha desejos. Ela sempre respondia: ‘Mine, faça como achar melhor, estou de acordo e contente com tudo o que você fizer e resolver’”. Assim descreve Margarete, no volume dois de suas memórias, a relação entre Albertine Müller e sua cunhada e anfitriã.
Em nosso último encontro, contava a vocês, queridos leitores, o início desta segunda viagem da família Müller à Alemanha, em março de 1895. Destaco, acima, a lembrança que Muck registrou sobre os arranjos na convivência por meses de um grande grupo de pessoas. Além de seus 5 filhos, Albertine estava acompanhada de sua irmã Vivi e de mais uma “mocinha” que ajudava com as crianças. Em seus registros já na maturidade, Muck diz olhar para esse passado e perceber a sabedoria e auto disciplina entre aquelas mulheres, que tão diferentes eram entre si, mas “cada uma deixava a outra ser o que era”.
A Vivi é relatada como a extrovertida e “o palhaço da casa”, pois possuía um inabalável senso de humor e estava o tempo todo brincando com os meninos, a ponto de, às vezes, Albertine interferir, quando estas animações se tornavam demasiadas demais. Enquanto esta possuía um porte alto e imponente, porém calma e ponderada, a irmã mais nova, a Vivi, era pequena, “buliçosa e endiabrada” e “não poderia ser considerada bonita”, mas possuía devoção por Albertine e seus filhos.
Tia Taminchen era pequena e delicada, e mesmo sendo considerada bondosa pelos sobrinhos brasileiros, era enérgica e respeitada em suas ordens. Sua casa é descrita pela organização e pontualidade nas rotinas diárias. Nestes relatos de Muck, que foram escritos muitos anos depois da morte destas mulheres, o que salta aos olhos é a admiração e o amor por sua mãe, e o carinho pelas tias. Diz que Albertine “nunca pronunciava palavras ofensivas e sempre demonstrava a mesma gentileza e o mesmo respeito” às irmãs e cunhadas. Segundo Margarete, “tais qualidades são inatas, elas não se transmitem”.
Dessa temporada em Brunswick, outro fato marcou os sentimentos de Muck. Após seu aniversário de seis anos, em março de 1896, ela adoeceu com escarlatina. A prescrição médica foi a internação hospitalar, porém, mesmo com a afirmação pelo médico de que ele poderia sofrer sanções legais em não internar a menina, Albertine foi sumariamente contra e não aceitou se separar da filha. A alternativa foi a internação das duas em um quartinho no sótão, completamente isoladas. Foram semanas de clausura em um cômodo com apenas uma janela. As refeições eram colocadas sobre uma mesa no lado de fora da porta trancada.
Na lembrança ficaram as inúmeras canções e poesias recitadas pela mãe. Para ter o que fazer, Albertine levou sua máquina de costura e fez as primeiras camisolinhas de Muck. Esta afirmou que durante toda a sua vida, “como num toque de mágica, o ra-ta-ta de uma máquina de costura” a transportava para a sua infância, pois, mesmo depois desta enfermidade, sempre “quando estávamos doentes, mamãe ficava em nosso quarto com sua máquina.
A cura e a saída do enclausuramento produziram outra lembrança feliz: Taminchen, Vivi, Minna, Hermann, Erich, Hans e o pequeno Bubi, todos de braços estendidos, enquanto Muck descia as escadas de mãos dadas com Albertine.

