Professora Delmira de Oliveira Lopes: música e alfabetização com amor
“Delmira, Delmira, Delmira, Delmira, Delmira, Delmira, Delmira, Delmira” ovacionou o povo, naquele outubro de 1959, ao ver ali presente, no comício do candidato a prefeito Cid de Azevedo Marques, aquela corpulenta e anciã de 73 anos que havia com carinho alfabetizado quase todos ali. Foi a consagração do amor e do respeito àquela que, naquele momento, encarnava todo o orgulho e a altivez que hoje foram tirados de nossos professores. Num tempo em que se aplaudia sem desconfiança, Delmira foi instada a subir no palanque e discursar sob aplausos retumbantes e gritos emocionados. Após ter ajudado o candidato a ser eleito, faleceu em paz, dez meses depois, em 14 de agosto de 1960. Foi singelamente sepultada entre seus dois maridos, homens que não podiam ter naturezas mais antagônicas.
Formada no ano de 1903 pela Escola Complementar de Itapetininga, hoje Instituto de Educação “Dr. Peixoto Gomide”, chegou em Villa Americana em 1904 e começou a lecionar na segunda escola feminina. Teve como seus primeiros colegas seu irmão Silvino José de Oliveira, sua cunhada Olympia Barth de Oliveira, Risoleta Lopes Aranha, João Solidário Pedroso, Clarice Costa Conti e Otávio Soares de Arruda.
Com a fundação do Grupo Escolar “Dr. Heitor Penteado”, trabalhou com o professor Alcindo Soares do Nascimento, primeiro diretor da escola, e com Maria José de Mattos Gobbo. Foi fundadora de escolas infantis para crianças com idade não escolar, o que passou a chamar a atenção, pois seus alunos chegavam no primário quase alfabetizados. Por pertencer a uma família de músicos, também lecionou piano, muitas vezes gratuitamente aos mais necessitados.
Mulher ativa, sempre atuou em instituições de caridade e participou da vida político-administrativa da cidade, sendo inclusive responsável por sugestões de nomes de rua do quadrilátero da antiga Matriz de Santo Antônio. Mesmo aposentada, mantinha o respeito de políticos e moradores, chegando a escrever cartas de sugestões, reclamações e elogios a prefeitos, como a de 6 de março de 1957, a Abrahim Abraham, uma verdadeira peça de diplomacia e domínio da língua portuguesa.
Elogia na carta alguns aspectos e tece críticas em relação a outros, com estudada simplicidade, demonstrando que problemas pequenos de manutenção afetavam a vida cotidiana de trabalhadores e famílias simples, como o estado da sua rua “que está no centro da cidade, pertinho do jardim, da igreja, da prefeitura, do Grupo Escolar, do Cacique e de um arranha-céu…”. Ao elencar estes importantes prédios, sutilmente insinua ser um absurdo a existência de tais problemas e que bastava “você vir dar uma voltinha aqui, para constatar o que estou dizendo e como é fácil dar providências”.
Em tom coloquial diz que gostaria de ter entregue a carta em mãos, mas não encontrou o prefeito no Paço Municipal, e após esta crítica velada conta que, no dia anterior, visitou o cemitério municipal e teve a oportunidade “de ver de perto a Caixa de Água (referência ao novo prédio do atual DAE) e o Grupo Escolar (estabelecimento de ensino que viria depois receber o nome de seu irmão) tendo ficado muito entusiasmada com este trabalho, e sentindo não ser uma de suas professoras”. Penso que a sagacidade tenha feito Abrahim Abraham sorrir de canto ao terminar a leitura, e talvez pensar se de fato deveria oferecer-lhe um emprego…
Dedico aos professores de ontem, hoje e do amanhã esta pequena crônica de uma grande mestra, a primeira de uma série em homenagem ao 15 de outubro próximo. Agradeço a outra grande dama, a ilustre Fanny Olivieri, professora querida de minha mãe, por ter me apresentado a sua professora Delmira e me emprestado carta tão deliciosa. Querido leitor, caso queira ler a carta da Delmira, sua digitalização está disponível em nosso site (www.12denovembro.com.br) ou, se preferir, entre em contato e nos conte sobre seus mestres do passado.
