Franz e Abertine Müller
“Saímos da Antuérpia a 12 de dezembro de 1853 com vento favorável, que nos permitiu atravessar o Mar Norte em 24 horas, … tudo corria bem, quando no Natal enfrentamos uma forte tempestade, que durou três dias e não nos permitiu acender o fogão e nem mesmo a lanterna da cabine. Ondas enormes, ventos fortes, trovoadas e relâmpagos abalaram nossa coragem e esperança de alcançar as costas brasileiras”, este relato faz parte da carta escrita por Martim Gertum, que com seus seis irmãos e respectivas famílias, deixaram a cidade de Oberwesel no Reno e viajaram num barco a vela até aportarem em Rio Grande, em 5 de fevereiro de 1854.
A despensa do navio foi carregada com 1.250 quilos de batata,1 barril de chucrute ½ barril de feijão branco, 300 quilos de farinha de trigo, 100 quilos de ameixas secas, 1 barril de maças frescas, 300 quilos de açúcar, 25 quilos de maças secas, ¼ de barril de vinagre, ¼ de barril de óleo, 50 quilos de bacalhau, 50 quilos de café, 100 quilos de ervilha seca, 600 quilos de pão preto, 300 quilos de um tipo de bolacha chamada “zwieback”, 500 jarros de água espumante, 100 quilos de carne fresca, 175 quilos de presunto defumado, 75 quilos de manteiga salgada, 50 quilos de banha de porco, 1.200 ovos, 200 galinhas vivas, 12 carneiros vivos e 2 porcos vivos. Após a tempestade que enfrentaram, entre tantas coisas perdidas, estavam 40 galinhas que morreram afogadas.
Entre os irmãos Gertum estava Catharina, que era casada com Albert Goetze e possuía dois filhos: Alfonso e Theodor. Todos seguiram de Rio Grande a Porto Alegre pelo rio Guaíba, onde chegaram em 11 de fevereiro de 1854 e viveram bem até novembro de 1855, quando um surto de cólera assolou a cidade gaúcha. Por dia faleciam entre 170 a 180 pessoas, em 12 dias morreram 14 pessoas das famílias Gertum e Goetze. Albert e Catharina mudam-se para São Leopoldo, cidade onde tiveram mais seis filhos, entre eles Anna Karoline Albertine Goetze em 28 de junho de 1863, que mais tarde se tornaria conhecida por todos em Villa Americana como dona Albertina Müller.
É em São Leopoldo que Albertine, como era chamada pelos pais e irmãos, conhece o jovem Franz Friedrich Wilhelm Müller, nascido em 1855, na cidade de Braunschweig, na Alemanha, e que chegou no Brasil em 1880, com 25 anos de idade. Franz morava em Porto Alegre e começou a trabalhar para uma indústria têxtil, viajando a cavalo pelo interior gaúcho, visitando clientes e levando amostras de tecidos. Durante estas viagens ele passou a frequentar a casa da família Goetze, onde encontrava grande alegria entre os jovens e sempre boa música, pois o médico Albert era exímio musicista e tocava violino e piano. Essas visitas ficaram cada vez mais frequentes e fizeram com que Albertine passasse a espreitar pela janela, esperando por Franz.
O namoro de Franz e Albertine levou ao casamento em 1883 e o casal morou por 5 anos em Porto Alegre, cidade natal dos três primeiros filhos, Hermann Theodor (em homenagem ao irmão de Albertine vítima do cólera) Müller, em 1º de abril de 1884, Erich, em 13 de junho de 1885 e Hans, em 21 de novembro de 1886.Relatei aqui fatos e experiências dos membros originários de Albertina Müller com o intuito de levar você, querido leitor, através de uma viagem num barco a velas, à uma viagem no tempo, que provoque reflexões sobre transformações, sobre como as coisas mudam devido a ação do homem sobre o tempo. Durante o segundo semestre de 2026, escreverei uma série de textos sobre os filhos e suas linhagens do casal Franz e Albertine, até nosso próximo encontro.

